quarta-feira, 23 de março de 2011

O Amor Acaba.

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova York; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Paulo Mendes Campos.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Thanks, Sir Paulie Macca.

Bom, para tirar a poeira disso aqui, nada melhor para mim do que falar sobre o que mais me marcou no ano de 2010. Show do Paul McCartney, melhor dia da minha vida, até então. O fato é que não ficará apenas na lembrança do ano que está se passando, e sim ao longo de toda uma vida, que eu espero durar! :D

Eu e meu pai acordamos na manhã do dia 22/11/2010 às 7:00 para estar no aeroporto às 9:00 e pegar o voo às 10:50. Chegando em Confins, o aeroporto estava completamente lotado de executivos, trabalhadores e, claro, lotado também de Beatlemaniacos, aparentemente. Me senti em casa e aí começou a cair em mim que eu iria ao encontro de um Beatle.

Entramos no avião, depois de 30 minutos de espera, chegamos em Congonhas e aí que meu coração disparava mesmo. Meu Deus, estava indo ver Paul McCartney! Certo. Fomos para o Ibis que se encontra logo em frente ao aeroporto e, ao pisar no hotel, um bando de pessoas vinham em nossa direção perguntando se queríamos alugar van para ir e voltar do show do Paul. Todos lindos com a camisa, faixa, rosto pintado, prontos para a maior experiência de cada um ali. Eu e meu pai não aceitamos, até porque a van iria sair de lá às 16:00 e os portões abririam às 17:30 e eu gostaria MUITO de chegar cedo por causa da fila. Ok, subimos correndo, arrumamos as coisas, trocamos de roupa, descemos para almoçar e pegamos o taxi para ir pro Morumbi. Coração a mil, claro, o motorista do taxi metendo o pau na galera que ia pro show, dizendo que é perda de dinheiro e de tempo, eu quase enforcando o cara e meu pai quase perdendo a cabeça também, porém chegamos ao nosso destino e ali estávamos, eu, meu pai e uma beatlemania que eu só assistia nos dvds, shows e documentários dos Beatles. Fomos correndo retirar os ingressos e o cara da bilheteria rindo de mim por já estar chorando. Ao pegar o ingresso com minhas próprias mãos, foi quase um desabafo mesmo, chorei, gritei, era a melhor sensação possível até então, (até então!). Fomos para a fila e encontramos/conhecemos um cara super gente boa que estava já junto à mim e meu pai, o Lucas. O foda é que ele se perdeu no meio do show e não tivemos notícias dele mais, mas isso depois eu conto. Eu, meu pai e o Lucas na fila, já com o coração na mão. Ficamos assim até umas 16:00, quando o céu desabou a chover em nossas cabeças. Tudo bem, tudo bem, estamos indo ver o Paul. A Mada, uma amiga minha que conheci pela internet, me encontrou lá e veio para a fila com a gente. Chovia muito, muito, muito e todos nós na fila com aquela capinha horrível de chuva, alguns morrendo de fome também. Ok, deu 17:30 e nada de portão abrir. 18:00, nada de entrar no Morumbi. 18:30, galera correndo desesperadamente para entrar. No meio disso tudo, conseguimos passar em torno de 200 pessoas na fila e chegamos, enfim, na roleta para entrar. UM PÔSTER GIGANTE DO PAUL LOGO DE ENTRADA e eu chorando ever junto com a Mada. Tiramos fotos, rimos, encontramos com uma galera legal e logo saimos correndo para a entrada do Morumbi. Ao me deparar com aquela coisa gigante que é o estádio e todas aquelas pessoas lindas, muitas ali por obrigação, outras por prazer e por realizar o maior sonho, como era o meu, me fez emocionar muito. Por fim ficamos no meio da pista, mais ou menos um pouquinho pra frente, eram em torno de 40 metros do palco. Esperamos ali dentro de 18:30 à 21:30 (tudo ótimo para nós que estavamos já dentro do estágio, nos lugares postos), quando começou a passar a abertura com vídeos lindos e coloridos, junto aos Twin Freaks que me emocionaram. Até então o Lucas, o garoto que estava conosco, tinha se perdido ao tentar ir ao banheiro. O Paul demorou para entrar no palco, mas e daí? ainda teremos três horas de show, três horas emocionantes, três horas que irão para nossa vida toda! Enfim, a espera tinha acabado e vimos que o sonho estava apenas começando. O palco todo azul e o Paul chegando ali com o Hofner levantado e todo mundo delirando. Magical Mystery Tour! Roooooll uuuuup! ♪ Ele, o Mestre nos convidando para uma viagem mágica e misteriosa. Poderia começar ainda melhor? Não mesmo. Gritamos, desmaiamos, choramos, foi a maior expeciência de todas as vidas ali presentes. Acho que só quem presenciou aquilo, apenas quem estava ali vivendo tudo aquilo, sabe bem a sensação e como é fazer parte da verdadeira beatlemanía, não é, Buzele? (:

Hoje agradeço muito ao meu beatlemaniaco preferido, meu pai, que me deu o melhor presente que já poderia ter pensado em me dar, e claro, ao Sir Paulie Macca. Tudo bem in the rain, certo? :D


"And in the end, the love you take is equal to the love you make."

Obs.: Foto de minha autoria.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Um sonho, uma realidade.

Depois de várias especulações de que o grande (e mais foda) músico Paul McCartney viria ao Brasil, a espera de mais de milhões de fãs acaba. Dias 7, 21 e 22 de novembro, para muitos, os dias mais importantes de suas vidas, e eu marcando minha presença. :D





The wait is over! McCartney, thanks for making my dream come true.



quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Boa tarde, cara pálida.
Confesso que tem dias que não venho aqui para escrever algo decente e relativamente ''legível''. Agora são 14:05, acabo de terminar de conversar com meu namorado por telefone e ao meu lado só encontro livros e mais livros para pegar e estudar, passar a tarde toda estudando - meu objetivo (não que eu vá mesmo correr atrás disso ou coisa parecida). Ultimamente não vem acontecendo nada de novo em minha vida ou em volta de mim, o que mais me chamou atenção hoje (até agora), foi quando, indo para o colégio, encontrei com uma das pessoas que mais admiro por aqui. Um velho de mais ou menos uns 70 anos, com aparência de 99, andando pela rua, bem devagar, saindo de uma padaria às 6:50 pela rua deserta vindo em minha direção com um sorriso bem aberto. E o sorriso era para mim! Pelo que sei dessa mera pessoa é que não é ninguém importante, o mesmo mora sozinho à muitos anos no bairro e que sempre encontro com ele pela rua, só que nunca com nenhum acompanhante, sempre andando bem devagarinho. Ele é baixo, sem cabelos, arrumadinho e sempre, sempre sorridente. Adoro ter que encontrar com ele na rua apenas para olhá-lo e dizer um simples ''bom dia'' logo ao receber aquele sorriso cativante. Você não sabe o quanto é bom sentir uma pessoa que você nem conhece ser assim com você sempre ao te ver, não só com você, mas com várias outras pela rua. Por que que o admiro tanto? Não sei dizer, só sei que aquele idoso, além de muito educado, tem um dos sorrisos mais lindos que já vi! Não daqueles com dentes brancos, limpos, lindos, lábios carnudos, nada disso!, só me impressiona o seu simples modo de viver e de sempre estar daquele jeito, aquele semblante de que já passou por muitas e boas na vida, porém nunca deixando tais problemas prevalecerem em seu cartão de visita. Pode ser besteira para você, para aquele ao seu lado, para o outro, mas não me importa. Isso mexe comigo e faz dele um exemplo para mim, um exemplo que deveria ser para todos, por todos.

domingo, 29 de agosto de 2010



Où elle était, où vivre sa vie, ses passions, votre inspiration, votre avenir, votre destin.

I FR.
"Je ne parlerai pas,
je ne penserai rien.
Mais un amour immense
entrera dans mon âme."

Arthur Rimbaud.

(Trecho de "Sensation" , 1870)

sábado, 21 de agosto de 2010

23 heures et 40 minutes. Je suis fatigué, sans inspiration et vous êtes maintenant dans le traducteur de Google.

Bonne nuit et au revoir.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

As coisas.

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

Jorge Luis Borges.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Dom Casmurro - Machado de Assis.

Do Título.

Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos.

A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

- Continue, disse eu acordando.

- Já acabei, murmurou ele. - São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.

Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você." - "Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo." - "Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça." Não consultes dicionários.

Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando!

Também não achei melhor título para a minha narração - se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.


Obs.: Não pretendo postar todos os capítulos do livro aqui, até porque não haveria paciência para isso, tanto da amadora, quando do leitor, apenas coloquei este por ser, para mim, um dos melhores ''primeiros capítulos'' já escritos na história da nossa literatura brasileira. Machado de Assis é de praxe.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Puisque Vous Partez En Voyage.


Françoise Hardy et Jacques Dutronc.